Samarco planeja estocar rejeitos em cima de destroços de Bento Rodrigues

Rafaella Dotta, do Brasil de Fato

Ao fundo, obras do dique S4, da Samarco/Vale/BHP Billiton / Fotos: Isis Medeiros

Ao fundo, obras do dique S4, da Samarco/Vale/BHP Billiton / Fotos: Isis Medeiros

Após ser vítima da maior tragédia ambiental do país, o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, será novamente coberto por rejeitos de minério. A denúncia do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) é de que não há limite claro para o alagamento a ser feito com o dique S4, obra da empresa para estocar lama em cima de Bento Rodrigues. A Samarco, de propriedade da Vale e BHP/Billiton, alega urgência e risco de segurança com época de chuvas.

O rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015, trouxe à Samarco o impasse de como estocar os rejeitos de anos de exploração da mina Germano. O local já possui três diques, que retêm 2,16 milhões de m³. Com o dique S4, a mineradora passaria a ter 1 milhão de m³ a mais em sua capacidade de armazenamento. Esse volume, segundo a Samarco, é necessário para garantir que as barragens ou diques não se rompam durante a época chuvosa.

O enterro de Bento

A área a ser alagada corresponde a 55 propriedades e atinge patrimônios culturais como a Estrada Real, os vestígios de um muro arqueológico, um muro colonial e a Capela de São Bento, do século XVIII. Capela e cemitério terão de ser protegidos por um tapume, segundo a mineradora. Além disso, o dique impossibilita que pessoas e visitantes cheguem pela estrada convencional até a comunidade, que se tornou um “museu da tragédia”.

Uma das proprietárias do terreno onde a empresa faz a obra, Lucimar Muniz, é crítica ao empreendimento e afirma que moradores de Bento também são. “Permitir a construção do dique S4 é compactuar com esse crime contra uma comunidade que merece ter sua memória viva”, declara.

Letícia Oliveira, integrante da coordenação do MAB, lembra que o dique S3 passou por alteamento – aumento do muro para aumentar a capacidade – e que o dique S4 corre perigo de sofrer o mesmo processo. “Se altear o dique S4, o que não é difícil, todo o Bento Rodrigues vai ficar embaixo d’água”, alerta.

Irregular desde o princípio

A mineradora iniciou a construção em junho deste ano, quando foi flagrada pela Polícia Militar do Meio Ambiente. A empresa desmatou, perante o derramamento de minério, cerca de mil hectares de floresta de áreas de conservação ambiental. A atitude rendeu multa de R$ 6 milhões à Samarco, mas moradores denunciam que as obras continuaram.

Governo de Minas dá carta branca para mineradora

Mesmo com as manifestações de moradores e movimentos, o governo estadual emitiu em 21 de setembro a desapropriação dos terrenos e a autorização para construir do dique, por meio de decreto. Em nota, o governo admite que o licenciamento ambiental não existe e que será feito posteriormente, de forma “corretiva”. Em contraposição, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) continua cobrando postura mais ativa da empresa para reparar os estragos que causou.

O promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, do MPMG, avalia que a urgência do dique S4 se deve à incapacidade da mineradora em ter feito a remoção da lama. Segundo ele, os rejeitos não foram retirados nem mesmo dos pontos principais, que vão da barragem de Fundão à barragem de Candonga, a 100 km de Mariana.

“Plantar graminha em cima da lama não vai resolver o problema”, diz o promotor, criticando a falta de planos de recuperação ambiental por parte da empresa. “A questão é onde estocar os rejeitos. Porém, a Samarco não priorizou esses estudos, mas estava preocupada com a volta do seu funcionamento”, diz. A empresa continua proibida de realizar exploração de minério no local.

Os atingidos realizarão uma marcha para lembrar o primeiro aniversário do crime. Eles saem de Regência (ES) no dia 31 de outubro e devem chegar a Mariana (MG) no dia 2 de novembro, em ação organizada pelo Movimento de Atingidos por Barragens (MAB). Nos dias 3 e 4, ficam reunidos em Mariana, onde serão promovidos debates sobre os motivos do rompimento da barragem. No dia 5, está previsto um ato público com o lema “Bento Rodrigues pertence aos moradores e não à Samarco”.

A penúltima reza

O repórter Daniel Camargos e o fotógrafo Alexandre Guzanshe estiveram em Bento Rodrigues no dia 24 e acompanharam a celebração de Nossa Senhora das Mercês no que restou do distrito de Bento Rodrigues. Apesar da decisão do governo mineiro de alagar parte da área para a construção do dique S4, os atingidos deixam claro que vão brigar por sua história. “Vamos lutar até o final. Até a última gota de sangue. Não vamos deixar isso aqui acabar nunca”, garante Cristiano José Sales, um dos organizadores da celebração. Se depender deles, essa não terá sido a última reza.